Spielberg volta a apontar a câmera para o céu

E se a próxima grande virada da humanidade chegasse não pelo céu, mas pela tela da sua sala? É essa a ideia por trás de Dia D (Disclosure Day no original), o suspense de ficção científica que marca o retorno de Steven Spielberg ao gênero quase vinte anos depois de Guerra dos Mundos. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 11 de junho de 2026, tem 2 horas e 25 minutos de duração e chegou às telas com 89% de aprovação no Rotten Tomatoes.

O dono de E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau não voltou ao território alienígena para brincar. Em vez da invasão barulhenta de sempre, Dia D aposta no incômodo: a ameaça começa pequena, quase silenciosa, e cresce na mesma medida em que o público vai entendendo o tamanho do que está em jogo. Classificado para maiores de 12 anos, o filme troca a explosão pelo suspense e a ação pela boa e velha paranoia.

Um susto transmitido ao vivo

O grande trunfo do filme está no ponto de partida. Nada de naves surgindo no horizonte: tudo começa numa tela de TV, no meio de um programa comum, quando o inexplicável invade a casa de todo mundo ao mesmo tempo. É o tipo de cena que mexe com um medo bem atual, o de assistir, em tempo real e sem filtro, a um acontecimento que muda o rumo da história enquanto ele acontece.

O que vem depois, Dia D prefere revelar com calma. Fenômenos estranhos se espalham, as autoridades começam a se contradizer e a suspeita de que algo enorme foi varrido para debaixo do tapete só aumenta. O roteiro segura as cartas e deixa o espectador montando o quebra-cabeça junto com os personagens, sem entregar mais do que precisa. Quem gosta de mistério bem armado, no estilo de outros enigmas de ficção científica, encontra aqui um prato cheio.

Emily Blunt comanda um time de peso

Para uma história dessa escala, Spielberg reuniu um elenco e tanto. No comando está Emily Blunt, que vem de Oppenheimer e da franquia Um Lugar Silencioso e carrega o filme nas costas como a peça central de tudo o que acontece. Ao seu lado, Josh O’Connor, conhecido por dar vida ao jovem príncipe Charles em The Crown e por brilhar recentemente em Rivais, divide boa parte do peso da trama.

O elenco de apoio só reforça o calibre do projeto. Colin Firth, que levou o Oscar por O Discurso do Rei, e Colman Domingo, indicado à mesma estatueta por Rustin, dão densidade aos coadjuvantes, enquanto Eve Hewson, revelada na série Bad Sisters, completa o grupo. É gente de sobra para garantir que, mesmo num filme sobre o desconhecido, o foco nunca saia das pessoas.

O reencontro de Spielberg com a ficção científica

Mais do que um lançamento qualquer, Dia D carrega o peso de uma assinatura. Poucos cineastas moldaram tanto a forma como o cinema imagina o contato com outros mundos, e rever Spielberg nesse terreno desperta uma curiosidade legítima. Dessa vez ele dividiu a missão com David Koepp, roteirista de confiança que já assinou ao seu lado clássicos como Jurassic Park e Guerra dos Mundos.

A dupla aposta numa ficção científica de pegada mais adulta, daquelas que usam o fantástico para falar de coisas bem reais. Não é o extraterrestre fofo de E.T. nem a destruição em massa de uma invasão típica, e sim algo no meio do caminho: um suspense de conspiração com alma de drama. Para quem cresceu com os clássicos do diretor, é um reencontro; para quem não cresceu, é uma boa porta de entrada no seu lado mais inquieto.

Tensão no lugar de explosão

Quem comprar o ingresso esperando ação ininterrupta talvez precise recalibrar a expectativa. Dia D constrói o medo no detalhe, no que não se vê e no que ainda não se entende. São quase duas horas e meia que pedem paciência e recompensam quem topa o jogo, com uma tensão que vai apertando aos poucos em vez de estourar logo de cara.

A parte técnica ajuda a sustentar o clima. A trilha sonora pontua os momentos certos sem sufocar a cena, e a fotografia transforma ambientes banais em quadros inquietantes, daqueles em que o perigo pode estar em qualquer canto do enquadramento. Boa parte desse suspense de relógio vem da mão de Koepp, que já provou talento para o gênero em trabalhos de terror psicológico.

Um medo bem de 2026

Parte do impacto de Dia D vem de como ele conversa com o agora. Numa época em que qualquer acontecimento vira transmissão ao vivo e a desinformação corre mais rápido que os fatos, a ideia de um mundo entrando em pânico diante das telas soa menos fantasiosa do que gostaríamos. O elemento alienígena funciona como pretexto para falar de algo bem terreno: a confiança abalada nas instituições e o medo de estar sempre sendo enganado.

E quando o assunto é usar o medo do desconhecido para revelar quem nós somos, poucos diretores chegam aos pés de Spielberg. No fundo, mais do que os alienígenas em si, o que interessa a Dia D é a nossa reação a eles, o que o pânico revela sobre um mundo que já não sabe bem em quem acreditar. Não à toa, virou um dos assuntos mais comentados nas redes desde a estreia.

O que a crítica achou

A recepção foi calorosa. Com 89% de aprovação no Rotten Tomatoes, Dia D foi elogiado pela narrativa madura, pelo visual de tirar o fôlego e, acima de tudo, pela atuação de Emily Blunt. O consenso aponta um filme inteligente, que confia na cabeça de quem assiste em vez de mastigar cada resposta.

Nem por isso é unanimidade. Parte da crítica enxerga em Dia D um entretenimento de alto nível, mas com falhas visíveis, longe de ser uma obra-prima, com notas que rondam o 7 de 10. O ritmo contido divide opiniões: o que para uns soa como maturidade e ousadia, para outros é um filme que segura demais a mão e demora a engatar.

Para quem é esse filme

Dia D não é para quem entra na sala querendo só barulho e efeito. É uma ficção científica que prefere instigar a impressionar e encontra terror no mais humano dos medos: o de descobrir que talvez nada seja bem o que parece. Para quem curte suspense que faz pensar enquanto prende na poltrona, é parada quase obrigatória.

O novo trabalho de Spielberg estreou no Brasil em 11 de junho de 2026. Se a ideia de ver o mundo encarar uma verdade capaz de mudar tudo te fisga, esse é um filme para você.

Felipe Cota