Um meme da internet que virou fenômeno de cinema
Poucas vezes uma lenda nascida em fórum de internet chegou tão longe. Backrooms: Um Não-Lugar estreou nos cinemas brasileiros em 28 de maio de 2026 e fez o que quase ninguém esperava de uma adaptação de creepypasta: lotou salas mundo afora. Dirigido por Kane Parsons em sua estreia num longa-metragem, o filme tem 1 hora e 51 minutos de duração e cruza ficção científica com terror psicológico para contar a história de um homem que descobre um labirinto impossível no porão da própria loja.
Distribuído pela A24, a mesma casa de Hereditário e Midsommar, o longa não chegou de mansinho. Bateu o recorde de bilheteria do estúdio e transformou um conceito que circulava em imagens tremidas no YouTube numa das maiores surpresas comerciais do ano. Classificado como não recomendado para menores de 16 anos, é o tipo de terror que aposta no desconforto, não no susto fácil.
O que são, afinal, os Backrooms
Para entender o filme, vale voltar a alguns anos atrás, quando a ideia dos Backrooms surgiu num fórum de imagens. O conceito é simples e perturbador: salas amareladas, infinitas e idênticas, com carpete úmido e o zumbido constante de lâmpadas fluorescentes. Um lugar onde ninguém deveria estar, mas de onde também ninguém consegue sair. A imagem caiu no gosto popular e virou o exemplo perfeito do que a internet apelidou de espaços liminares: aqueles ambientes vazios que dão uma sensação estranha de familiaridade e angústia ao mesmo tempo.
O que prendeu tanta gente foi a lógica por trás do conceito. Reza a lenda que dá para “atravessar” a realidade sem querer e cair nesse lugar, onde vagar sem comida e sem saída à vista é só questão de tempo até algo surgir nos corredores. A ideia rendeu jogos, vídeos e uma comunidade inteira dedicada a expandir o mito, cada um acrescentando um novo andar ou uma nova criatura a esse universo. Foi essa febre coletiva que acabou pavimentando o caminho rumo ao cinema.
Tudo começa num porão
A trama acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis de vida pacata até fazer uma descoberta inquietante no porão da loja. O que deveria ser um depósito comum se revela uma passagem para algo muito maior: um labirinto de cômodos que se multiplicam sem lógica nenhuma, como se o porão não tivesse fundo. A cada porta, um novo ambiente; a cada corredor, a sensação de estar mais perto de outra realidade.
Incapaz de ignorar o que viu, Clark arrasta para a empreitada a funcionária Kat (Lukita Maxwell) e o namorado dela, Bobb (Finn Bennett), decidido a mapear a extensão daquele lugar. A exploração, como manda o gênero, dá errado. Quando Clark some sem deixar rastro, é a vez de sua terapeuta, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), entrar atrás dele e descobrir, da pior forma, que sair não é tão simples quanto entrar.
Um elenco mais robusto do que o terror costuma ter
O grande trunfo de Backrooms é não tratar o gênero como produção de segunda linha. À frente está Chiwetel Ejiofor, ator britânico indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão e conhecido do grande público como o Barão Mordo dos filmes de Doutor Estranho. Entregar o papel principal a um intérprete desse calibre já diz muito sobre a ambição do projeto: aqui o medo passa pela atuação, não apenas pelos sustos.
Ao lado dele, Renate Reinsve vive a terapeuta Mary Kline. A atriz norueguesa levou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por A Pior Pessoa do Mundo, e sua presença dá peso à única personagem que se embrenha ali por afeto, não por curiosidade. O elenco de apoio reforça o time: Lukita Maxwell, da série Shrinking, e Finn Bennett, revelado em True Detective: Night Country, completam o grupo de exploradores, com participação ainda de Mark Duplass, rosto familiar do cinema independente e da série The Morning Show.
Do YouTube para a cadeira de diretor
A história por trás das câmeras é quase tão improvável quanto a da tela. Parsons começou a publicar seus vídeos dos Backrooms no YouTube ainda muito jovem, em formato found footage, usando programas de animação e efeitos caseiros para criar atmosferas que estúdios levam meses para alcançar. Backrooms: Um Não-Lugar marca sua estreia na direção de um longa, um salto e tanto para quem aprendeu o ofício sozinho, na base da tentativa e erro.
Ele não fez isso sozinho, é verdade. A produção colocou pesos-pesados ao seu lado: nomes como James Wan, da franquia Invocação do Mal, e Shawn Levy, de Stranger Things, entraram como produtores, enquanto Will Soodik assinava o roteiro e Jeremy Cox cuidava da fotografia. Mesmo cercado de veteranos, o longa se manteve fiel à visão que conquistou a internet. É uma adaptação que não trai o material que a inspirou e ainda funciona para quem nunca ouviu falar da creepypasta.
Quando o vazio é o que assusta
O que torna Backrooms assustador não é um monstro à espreita, e sim a ausência de qualquer coisa. Os cômodos vazios, a iluminação doentia e o silêncio quebrado só pelo zumbido elétrico criam um isolamento que mexe com a cabeça antes de mexer com os nervos. É o horror que cresce devagar, na mesma linha de filmes que apostam no terror psicológico em vez do sangue jorrando na tela.
Mas há também um pé firme na ficção científica. A ideia de um lugar com regras próprias de tempo e geografia aproxima o longa de produções que brincam com realidades alternativas. Essa mistura entre o banal de uma loja de móveis e o inexplicável daqueles corredores é justamente o que dá ao filme sua identidade.
A24 e a maior bilheteria da sua história
Se a crítica ainda debate os méritos do filme, o público já cravou seu veredito nas bilheterias. Feito por menos de 10 milhões de dólares, Backrooms arrecadou mais de 212 milhões em todo o mundo, número que o transformou na maior bilheteria da história da A24, superando até os xodós do estúdio. Para uma adaptação de creepypasta, é um feito quase tão surreal quanto o próprio enredo.
O sucesso não brotou do acaso. A divulgação soube explorar a curiosidade de uma geração que cresceu com o mito dos Backrooms nas redes, e o boca a boca fez o resto: muita gente foi ao cinema só para ver como a tal do labirinto ficaria na tela grande. Filmado em Vancouver em 2025, o longa chegou às salas com um reconhecimento prévio que pouquíssimas estreias originais conseguem hoje em dia.
O que sobra depois da sessão
Para quem curte terror atmosférico, de construção lenta, Backrooms: Um Não-Lugar é parada quase obrigatória. As quase duas horas de projeção foram desenhadas para sufocar aos poucos, e o elenco de primeira garante que a tensão nunca soe boba. É menos sobre o que salta na tela e mais sobre o que nunca aparece: o vazio, o silêncio e a certeza de que não há porta de saída.
Quem chega sem conhecer a história encontra um suspense competente sobre pessoas perdidas num lugar que não deveria existir. Já quem acompanhou os vídeos de Kane Parsons ganha algo a mais: ver aquela ideia caseira alcançar escala de cinema sem perder o que a tornava assustadora. Backrooms estreou nos cinemas brasileiros em 28 de maio de 2026, classificado para maiores de 16 anos.
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